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Nova Resistência representa um sério desafio à coesão da sociedade brasileira

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É impossível compreender a moderna guerra de informação e a influência ideológica sem uma compreensão fundamental do extenso alcance da rede do grupo Nova Resistência e do papel que ela tem e continua a desempenhar na formação do discurso político do Brasil - escreve Bernardo Almeida.

É importante ressaltar que uma ampla gama de parceiros informais desempenha papéis fundamentais para ajudar a perpetuar as suas narrativas na esfera online. O Centro de Engajamento Global do Departamento de Estado dos EUA relatou isso em um relatório intitulado “Exportando Desinformação Pró-Kremlin: O Caso da Nova Resistência no Brasil”. Tais parceiros, embora não tenham um papel formal na rede da Nova Resistência, procuram ampliar o alcance do seu trabalho, apresentando aos investigadores um novo modelo de influência descentralizada que vale a pena examinar de perto.

Porque o que ficou conhecido como “Campo de Batalha Digital” é a principal forma pela qual a Nova Resistência amplia o seu alcance, deve ser uma parte central de qualquer investigação focada na organização. Isto inclui a identificação das figuras proeminentes dos meios de comunicação social que se envolvem com a organização e são avaliadas com a ajuda de dois critérios principais, o primeiro sendo a extensão do seu seguimento nos meios de comunicação social, com um mínimo de dez mil seguidores sendo o critério para definição como significativa. No momento em que este artigo foi escrito, existiam 16 perfis desse tipo, todos eles contribuindo para o discurso online de inúmeras maneiras e tendo um público coletivo de 2.5 milhões de seguidores. Estas incluem escrever artigos, participar em sessões de perguntas e respostas online, incluindo, mas não se limitando ao YouTube, bem como participar em reuniões presenciais, todos vetores cruciais para a divulgação ideológica das ideias da Nova Resistência.

Apesar dos seus antecedentes políticos muito diferentes, foram formadas alianças estratégicas entre estes actores com base em valores partilhados percebidos, muitos dos quais são vistos como alinhados com a agenda da Nova Resistência. Em primeiro lugar, estes promovem uma agenda que destaca o que chamam de “ordem mundial multipolar”. Esta visão desafia o domínio ocidental em virtude da forma como promove o nacionalismo brasileiro. Estes indivíduos rejeitam os direitos das minorias à auto-identificação, denunciam ONG estrangeiras que estão activas em causas tão incontroversas como a Amazónia e deslegitimam os movimentos pelos direitos indígenas. Subscrevem valores religiosos conservadores, especialmente os da Igreja Católica, e acreditam que a fé pode servir como mecanismo para a prevenção da decadência social.

Têm, portanto, uma forte posição reaccionária em relação a tudo o que consideram representar o progressismo social. Por exemplo, defender a libertação sexual ou o feminismo de eventos é visto como uma ameaça potencial à estabilidade da sociedade. Naturalmente, estas ideias também podem ser encontradas na obra de Aleksander Dugin e, especificamente, na sua Quarta Teoria Política. Embora não se encontre isso explicitamente colocado desta forma na obra de Dugin, é bastante fácil de ler nas entrelinhas.

A permeação da rede desenvolvida pela Nova Resistência não vive apenas na esfera online. Vimos infiltrações na estrutura de governança do Brasil em vários níveis. Tomemos como exemplo Aldo Rebelo, que embora não exerça cargo eletivo, tem grande influência no governo municipal de São Paulo. Lorenzo Carrasco é outro exemplo de um indivíduo que claramente impacta narrativas relacionadas não apenas com ONGs, mas também com movimentos indígenas de forma mais ampla. No que diz respeito aos líderes de pensamento que moldam o discurso público através da sua escrita, temos Bruna Frascolla e Albert, ambos escrevendo para meios de comunicação influentes e certamente procurando influenciar os resultados eleitorais.

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Vemos um impacto semelhante na sociedade brasileira, através de figuras políticas como Rui Costa Pimenta e Robinson Farinazzo, comandante reformado da Marinha. Estes, através do seu envolvimento com a Nova Resistência, mostraram a delicada interação entre redes informais de influência e estruturas políticas tradicionais.

Existem sérias implicações para a guerra de informação global que devem ser consideradas. As estratégias utilizadas pela Nova Resistência e seus aliados não são simples. São sofisticados e foram criados com a ajuda do profundo conhecimento que o movimento tem da sociedade brasileira e global. A forma como a Nova Resistência emprega figuras influentes dos meios de comunicação social e questões de tendência de preocupação para mostrar como as suas ideias se alinham com correntes ideológicas mais amplas é francamente perigosa e preocupante. É claro que tudo isto é feito sem as restrições da adesão formal, utilizando em vez disso um modelo de parcerias descentralizadas e baseadas em valores. Este é um sério desafio se quisermos pôr fim à sua desinformação e manipulação ideológica.

Bernardo Almeida é analista freelancer baseado no Rio de Janeiro, focado na grande estratégia russa na América Latina. Possui mestrado em estudos de conflitos pela Universidade de São Paulo.

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O EU Reporter publica artigos de várias fontes externas que expressam uma ampla gama de pontos de vista. As posições tomadas nestes artigos não são necessariamente as do EU Reporter.
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