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Nova Resistência no Brasil: Identificando Narrativas Perigosas e Contendo Sua Influência

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Nos últimos anos, o Brasil testemunhou a ascensão da organização de extrema direita Nova Resistência (NR), que conseguiu não apenas conquistar uma presença notável no cenário sócio-geopolítico do país, mas também teve suas ideias permeando com sucesso a sociedade brasileira. onde as suas narrativas radicais circulam livremente com a ajuda das suas ligações ao Kremlin. Compreender a essência das narrativas propagadas pela Nova Resistência e o alcance que eles têm conseguido alcançar para o seu trabalho com o apoio da Rússia, em vários segmentos da sociedade brasileira, particularmente através do Telegram, é importante para compreender a vasta gama de riscos que este grupo representa a coerência social. Também é importante olhar para além do Brasil e ver como a propagação bem-sucedida desta ideologia radical no Brasil poderia ser potencialmente replicada em outros lugares.

Antes de nos aprofundarmos nos riscos, é imperativo compreender melhor as principais histórias em torno das quais gira a agenda da Nova Resistência. Cada uma delas está entrelaçada com diversas subnarrativas que alimentam coletivamente o poderoso e muitas vezes ignorado mecanismo de propaganda da organização, que penetrou com sucesso na sociedade brasileira com a ajuda de seus apoiadores do Kremlin. Estas metanarrativas não são apenas conceitos abstratos; foram cuidadosamente elaborados para servir propósitos específicos, cujo objetivo final é remodelar a opinião pública em todo o país (com o objetivo de usar modelos semelhantes para impactar a região de forma mais ampla, bem como países fora da região), promovendo um clima que conduza à a incubação de ideologias extremistas.

Ao discutir estas questões, é importante olhar primeiro para o que tem o maior impacto potencial para semear a discórdia e derrubar a ordem social, nomeadamente o militarismo da Nova Resistência e a sua ligação a Moscovo. Na verdade, a forma como a forte ênfase dos seguidores da Nova Resistência no militarismo pode ser vista de forma mais proeminente através da forte característica da sua propaganda dos alegados “triunfos” da Rússia no conflito na Ucrânia. A Rússia é retratada como um exemplo de nacionalismo a que aspirar, com a Nova Resistência sugerindo abertamente, e muitas vezes discretamente, que o Brasil tem muito a aprender com o modelo nacionalista russo.

As histórias, essenciais aos esforços de qualquer organização deste tipo, que sustentam esta narrativa, enquadram a Ucrânia como um centro do racismo nazi e da decadência moral de forma mais ampla. A organização glorifica indirectamente figuras políticas divisivas, como Donald Trump, que, nas suas mentes, se alinham com estas visões de mundo extremas. É um erro encarar esta narrativa simplesmente como uma questão de política externa. Pelo contrário, os objectivos estratégicos mais amplos de tais esforços são encorajar a adopção de uma forma muito mais agressiva de nacionalismo no Brasil; especificamente, uma forma de nacionalismo que venera o poderio militar e a liderança autoritária como princípios-chave pelos quais lutar. É exactamente este tipo de nacionalismo que se enquadra bem na própria agenda da Rússia de semear a discórdia e de derrubar a coesão social em regiões geográficas seleccionadas a nível mundial.

Olhando para além destes princípios muito concretos da ideologia da Nova Resistência, é importante compreender a forma pseudo-intelectualista como a organização opera, promovendo um conceito familiar chamado “Multipolaridade”. Como acontece com qualquer agenda pseudo-intelectualista, esta narrativa tenta fornecer um verniz intelectual à agenda extrema da Nova Resistência, explorando perspectivas conservadoras já existentes (e predominantes no Brasil) sobre questões como papéis de gênero, sentimento anti-LGBTQIA+ e estereótipos generalizados. , juntamente com justificações para a violência contra as minorias. Na verdade, tais questões foram selecionadas cuidadosamente, não apenas pelo papel que podem desempenhar na divisão da sociedade brasileira, mas também pela sua relevância potencial em outros locais.

Estas estão frequentemente entrelaçadas com conotações religiosas que atraem muitos brasileiros religiosos, por exemplo, retratando o Ocidente como sob a influência de “Satanás”. Esta narrativa visa atrair um público religioso com mentalidade mais intelectual. A Nova Resistência recorreu a uma ferramenta que muitas organizações extremistas têm utilizado, nomeadamente legitimando posições extremas sob o disfarce de discurso teórico, gerando uma ilusão de sofisticação em torno de ideologias regressivas e perigosas.

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Isto naturalmente se conecta a outro ponto impulsionado pela Nova Resistência; a sua profunda desconfiança nos meios de comunicação tradicionais. Tendo demonstrado estar a operar num nível intelectual muito superior ao dos “grandes meios de comunicação”, a Nova Resistência irá, por exemplo, afirmar que os meios de comunicação ocidentais deliberadamente deturpam entidades como a Rússia para manter a sua própria hegemonia de elite, impulsionada pelos EUA. Aproveitando o ceticismo já existente em relação aos principais meios de comunicação social, funciona para exacerbar as divisões e promover uma mentalidade de “nós contra eles” baseada no outro. Segundo eles, a Nova Resistência deveria ser vista apenas como um farol da verdade, liderando uma cruzada contra uma vasta conspiração global que procura obscurecer a realidade. Isto não só desacredita fontes de notícias muitas vezes bem estabelecidas. Também posiciona a Nova Resistência como a única fornecedora da verdade não adulterada.

Foi realizada uma pesquisa sobre a rede de divulgação que vem sendo construída para difundir a narrativa da Nova Resistência. Isso girou principalmente em torno do aplicativo de mensagens criptografadas Telegram e mostrou que o conteúdo da Nova Resistência foi compartilhado, ao longo de um ano de pesquisa, em 752 canais. Note-se que estes canais não são de todo monolíticos, mas antes funcionam como parte integrante de um ecossistema complexo onde não são apenas empurradas narrativas identificadas com a Nova Resistência. Em vez disso, estas estão misturadas com ideologias semelhantes, todas adaptadas para ressoar com os principais grupos demográficos específicos que a Nova Resistência pretende alcançar.

Tal como acontece com qualquer esforço de mídia social, os influenciadores que já têm presença estabelecida nesses canais desempenham um papel crucial. Estes, na maioria das vezes, apresentam-se como intelectuais, como forma de dar credibilidade às narrativas pseudo-intelectuais da Nova Resistência. A operação é complexa, com outros canais atuando como curadores, que amplificam e legitimam o conteúdo em toda a rede, mobilizando apoiadores e incitando à ação. Isto é de facto semelhante às tácticas utilizadas pelo Kremlin noutros locais.

As implicações e ameaças potenciais das ações da Nova Resistência são de longo alcance, espalhando narrativas que justificam a violência e encorajam tendências extremistas. Estas radicalizam naturalmente os indivíduos, mas, o que é mais preocupante, desestabilizam ainda mais uma sociedade brasileira já fragmentada, criando colectivamente um ambiente propício a acções extremistas e ao florescimento do autoritarismo. Como foi referido, também têm potencial para serem replicados noutras geografias em risco pelos apoiantes russos da Nova Resistência.

O combate a esta influência insidiosa requer uma abordagem multifacetada com numerosas etapas. Deve incluir o aumento da literacia mediática, o que sem dúvida ajudará a combater a desinformação, a promoção de narrativas inclusivas que contrabalançam a retórica divisiva, e o fortalecimento dos quadros jurídicos, que podem ser as ferramentas com as quais as ações da Nova Resistência são restringidas online.

Esta organização bem coordenada não pode ser ignorada. A agenda é clara; remodelar o cenário político e social do Brasil, com o olhar atento do Kremlin sempre no sentido de reconstituir este modelo de sucesso em outros países. Ignorar isto não só se torna impossível como é perigoso. Em vez disso, devemos não apenas compreender, mas também trabalhar para expor narrativas e métodos, tomando todas as medidas necessárias para proteger o tecido unificado da nossa sociedade democrática.

Bernardo Almeida é analista freelancer baseado no Rio de Janeiro, focado na grande estratégia russa na América Latina. Possui mestrado em estudos de conflitos pela Universidade de São Paulo.

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