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Saúde

Medicina de precisão: moldando o futuro da saúde

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Uma entrevista com o Dr. Dragan Primorac

Dr. Dragan Primorac (foto), líder global em medicina personalizada e fundadora de diversas iniciativas pioneiras em genômica e medicina regenerativa, junta-se a nós para uma discussão aprofundada sobre como a medicina de precisão está transformando o futuro da saúde. De avanços genômicos a inovações em IA e terapias de ponta contra o câncer, o Dr. Primorac oferece insights sobre como a saúde está se tornando cada vez mais individualizada — e o que isso significa para pacientes e profissionais de saúde em todo o mundo.

P: Dr. Primorac, você pode começar explicando o que é medicina personalizada ou de precisão e por que ela é considerada revolucionária?
R: A medicina personalizada, também conhecida como medicina de precisão, está revolucionando a saúde ao adaptar o tratamento médico às características únicas de cada indivíduo. Essa abordagem integra fatores genéticos, ambientais e de estilo de vida para aprimorar a prevenção, o diagnóstico e o tratamento de doenças. Embora os benefícios potenciais sejam profundos, a implementação da medicina personalizada também apresenta desafios éticos, econômicos e logísticos significativos que devem ser enfrentados para garantir um atendimento equitativo e eficaz para todos.

P: Qual o papel da genômica nessa transformação?
R: No cerne da medicina personalizada está a genômica. À medida que o custo do sequenciamento completo do genoma continua a diminuir, a integração de testes genéticos à prática clínica de rotina torna-se cada vez mais viável. Avanços em genômica, bioinformática, inteligência artificial (IA) e análise de dados agora nos permitem identificar variações genéticas que influenciam a suscetibilidade a doenças e a resposta a medicamentos. Por outro lado, a multiômica (epigenômica, transcriptômica, proteômica, glicômica, metabolômica etc.) desempenha um papel crucial e em expansão na medicina personalizada — indo além da genômica para proporcionar uma compreensão mais holística e precisa da saúde individual.

P: Uma área interessante sobre a qual você escreveu é a farmacogenômica. Seu livro recente, Farmacogenômica na Prática Clínica, publicado pela Springer Nature, é amplamente considerado umé um dos mais trabalhos abrangentes e impactantes na área. Você pode descrever como funciona?
R: Uma das aplicações mais transformadoras é a farmacogenômica (PGx) — o estudo de como os genes afetam a resposta de um indivíduo a medicamentos. Ao compreender as diferenças genéticas que influenciam o metabolismo, o transporte, os receptores de ligação, a eficácia e a toxicidade dos medicamentos, os médicos podem adaptar os tratamentos a cada paciente, reduzindo a prescrição por tentativa e erro e minimizando as reações adversas aos medicamentos. Essa abordagem é particularmente impactante em oncologia, psiquiatria e cardiologia, onde as respostas aos medicamentos variam amplamente.

P: Que tipo de impacto no mundo real a farmacogenômica pode ter?
R: Um estudo americano de 2018 estimou que reações adversas a medicamentos (RAMs) e eventos adversos (EAMs) evitáveis devido a anulações inapropriadas de alertas de medicamentos custam ao sistema de saúde entre US$ 871 milhões e US$ 1.8 bilhão anualmente. Nosso livro recém-publicado, Farmacogenética na Prática Clínica (Springer Nature), aborda todos os aspectos críticos da farmacogenômica (PGx) e foi elaborado para auxiliar médicos, pesquisadores e estudantes na aplicação desses insights na prática médica diária.

P: Você pode dar exemplos específicos de como os testes genéticos podem orientar o tratamento?
R: Por exemplo, testes genéticos para enzimas hepáticas como CYP2D6 e CYP2C19 podem identificar pacientes que podem não responder a antidepressivos comuns. Considerando que aproximadamente 60% das 700,000 pessoas que morrem por suicídio a cada ano têm um transtorno de humor, como depressão ou transtorno bipolar, isso ressalta a importância crucial dos testes farmacogenômicos (PGx) para melhorar o tratamento e os resultados da saúde mental. Além disso, a farmacogenômica é fundamental na otimização da terapia com Clopidogrel — um medicamento antiplaquetário — por meio da análise de variações no gene CYP2C19. Indivíduos com certas variantes genéticas são classificados como metabolizadores intermediários ou fracos, o que significa que convertem menos do pró-fármaco em sua forma ativa. Essa ativação reduzida aumenta significativamente o risco de eventos cardiovasculares adversos, como acidente vascular cerebral ou ataque cardíaco, ressaltando o potencial de salvar vidas de estratégias de tratamento personalizadas.

P: Quais são alguns dos desafios atuais na implementação da farmacogenômica em ambientes clínicos?
R: Apesar de promissora, a integração da farmacogenômica à prática clínica enfrenta obstáculos, incluindo altos custos de testes, treinamento clínico limitado e preocupações com a privacidade de dados genéticos. No entanto, o potencial da farmacogenômica para aumentar a segurança e a eficácia dos medicamentos é inegável.

P: Como a inteligência artificial está contribuindo para o campo da medicina de precisão?
R: A IA está transformando rapidamente a medicina personalizada, permitindo a análise de conjuntos de dados complexos — incluindo informações genômicas, de estilo de vida e clínicas — para prever riscos de doenças e orientar tratamentos. Ferramentas de IA agora são usadas para prever condições como diabetes, doença de Alzheimer e doenças cardiovasculares, permitindo intervenções mais precoces e precisas. Ao utilizar dados de prontuários eletrônicos, perfis genéticos e dispositivos vestíveis, a IA aumenta a precisão do diagnóstico e permite planos de tratamento altamente personalizados.

P: Em um estudo publicado recentemente, você e seus colegas desenvolveram e validaram uma ferramenta de IA integrativa chamada OncoOrigin para prever o sítio primário do câncer em pacientes com câncer de origem primária desconhecida (CUP). Isso representa uma nova aplicação de aprendizado de máquina em oncologia. Você pode explicar como essa abordagem funciona e o que a torna inovadora?

A. Neste in silico estudo, minha equipe do Hospital St. Catherine e os cientistas do US Dartmouth Health analisaram mais de 20,000 amostras de tumores metastáticos e mutações em mais de 600 genes diferentes e os resultados são baseados em simulações computacionais. Finalmente, o modelo ótimo foi integrado a uma interface gráfica do usuário no software OncoOrigin. Entre os quatro modelos de aprendizado de máquina testados, o XGBoostClassifier demonstrou o melhor desempenho, atingindo um valor ROC-AUC de 0.97 (Característica Operacional do Receptor - Área Sob a Curva), onde o valor máximo possível é 1. Um valor de 1 representa um modelo perfeito que classifica corretamente todos os tipos de tumor sem erro, enquanto um valor de 0.5 indica um modelo não melhor do que a suposição aleatória. Quanto mais próximo o valor ROC-AUC estiver de 1, mais precisamente o modelo identifica o local correto do tumor primário.

P: Há alguma preocupação relacionada à IA na área da saúde?
R: Os desafios permanecem, incluindo preocupações com privacidade de dados, viés algorítmico e a interpretabilidade das decisões baseadas em IA. Na conferência que estamos organizando em junho de 2026 em Dubrovnik — organizada conjuntamente pelo St. Catherine Specialty Hospital, pela Mayo Clinic, pela Sociedade Internacional de Ciências Biológicas Aplicadas (ISABS) e pelo Centro Internacional de Pesquisa Biológica Aplicada (ICABS) — abordaremos todas as questões-chave relacionadas à aplicação da inteligência artificial na prática clínica. Mais de 500 médicos e cientistas de todo o mundo — incluindo vários ganhadores do Prêmio Nobel — participarão deste evento histórico para discutir o futuro da inteligência artificial na medicina.

P: Como os escores de risco poligênico (PRS) estão sendo usados na prática clínica?
R: Na era da tecnologia da informação, médicos e cientistas desenvolveram uma ferramenta essencial adicional na medicina de precisão: os Escores de Risco Poligênico (PRS). Esses escores agregam dados de múltiplas variantes genéticas para estimar o risco de um indivíduo desenvolver doenças complexas, como doença arterial coronariana ou câncer de mama. Cada vez mais, os PRS estão sendo utilizados para orientar estratégias de triagem e prevenção, permitindo uma abordagem mais proativa e personalizada à saúde.

P: Você pode nos contar mais sobre nutrigenômica e seu potencial?
R: A nutrigenômica explora como os genes interagem com os nutrientes, oferecendo uma nova fronteira na saúde personalizada. Ao analisar o perfil genético de um indivíduo, a nutrigenômica permite a criação de planos nutricionais personalizados que otimizam a saúde, previnem doenças e aumentam o bem-estar. Por exemplo, alguns indivíduos podem ter variantes genéticas que afetam o metabolismo da gordura, a absorção de vitaminas ou a sensibilidade à cafeína. Recomendações dietéticas personalizadas com base nessas informações podem ajudar a reduzir o risco de doenças crônicas, como obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares. Embora ainda seja um campo emergente, a nutrigenômica é uma grande promessa para o futuro da medicina preventiva.

P: Como a medicina personalizada está transformando especificamente o tratamento do câncer?
R: O tratamento do câncer entrou em uma nova era, impulsionado pelo poder da medicina personalizada. Ao contrário das abordagens tradicionais que aplicam o mesmo tratamento a todos os pacientes com um tipo específico de câncer, a oncologia personalizada personaliza as terapias com base na composição genética, na biologia tumoral e nos marcadores moleculares de cada indivíduo. A medicina personalizada não está apenas mudando a forma como tratamos o câncer — está transformando a forma como o entendemos. Ao alinhar o tratamento à biologia única de cada paciente, nos aproximamos de um futuro em que o tratamento do câncer será mais preciso, mais eficaz e mais humano.

P: Você pode compartilhar exemplos de como as terapias direcionadas funcionam no tratamento do câncer?
R: Por exemplo, no câncer de pulmão de células não pequenas (NSCLC) — que representa aproximadamente 85% de todos os cânceres de pulmão — pacientes com mutações no gene do receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR) podem se beneficiar de terapias direcionadas, como o osimertinibe (Tagrisso). Este medicamento tem como alvo específico as mutações do EGFR, suprimindo eficazmente a proliferação e a sobrevivência das células tumorais, e oferecendo uma alternativa mais eficaz e menos tóxica à quimioterapia convencional. Outro exemplo de terapia direcionada é o tratamento do câncer colorretal metastático com uma mutação BRAF V600E. Essa mutação faz com que a proteína BRAF — normalmente envolvida na regulação do crescimento celular — se torne permanentemente ativa, levando à proliferação tumoral descontrolada. O encorafenibe (Braftovi®), um inibidor do BRAF, bloqueia essa proteína mutada e interrompe a sinalização hiperativa. Quando combinado com o cetuximabe (Erbitux®), um anticorpo monoclonal que tem como alvo o EGFR, o tratamento torna-se significativamente mais eficaz ao inibir simultaneamente duas vias-chave envolvidas no crescimento tumoral.

P: Quais desafios ainda enfrentamos no tratamento personalizado do câncer?
R: A complexidade do câncer continua sendo um desafio formidável. Os tumores são altamente heterogêneos e podem evoluir ao longo do tempo, frequentemente desenvolvendo resistência a terapias inicialmente eficazes. Essa natureza dinâmica exige monitoramento contínuo, planos de tratamento adaptativos e um forte compromisso com pesquisa e inovação contínuas.

P: O que é terapia derivada do paciente e como ela se encaixa na medicina de precisão?
R: As terapias com células-tronco mesenquimais (MSC) e tecido adiposo microfragmentado (MFAT) também são consideradas formas de medicina personalizada — principalmente quando utilizam o próprio material biológico do paciente. As células-tronco mesenquimais (MSCs) demonstraram notável eficiência clínica em uma ampla gama de aplicações da medicina regenerativa, comprovada por estudos pré-clínicos e clínicos.

 Por outro lado, a terapia MFAT envolve a coleta de tecido adiposo (gordura) do paciente por meio de um procedimento minimamente invasivo. Esse tecido é então processado e reinjetado em áreas-alvo de lesão ou degeneração — como articulações, tendões ou ligamentos — com base na condição clínica específica do paciente. O MFAT é rico em células-tronco derivadas do tecido adiposo, fatores de crescimento e agentes anti-inflamatórios, todos os quais auxiliam no reparo e regeneração tecidual de forma alinhada à biologia única do paciente.

P: Olhando para o futuro, como você vê o futuro da medicina personalizada?
R: Apesar dos desafios, o potencial da medicina personalizada para revolucionar a saúde é inegável. Ela oferece um futuro em que os tratamentos são mais eficazes, os efeitos colaterais são minimizados e as doenças são detectadas antes que se tornem fatais. A concretização dessa visão exige investimento em pesquisa, educação e infraestrutura, bem como o compromisso de abordar as implicações éticas e sociais desse campo em evolução. Com planejamento criterioso, políticas inclusivas e prática ética, a medicina personalizada pode se tornar um pilar fundamental da saúde no século XXI, cumprindo a promessa de um cuidado verdadeiramente individualizado.



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